× Estatística 1 Estatística 2 Matemática Financeira Logística 1 Administração Financeira Logística 2

open

Administração Financeira - Aula 7

Aula 07 - Decisões de investimento de longo prazo

Decisões de investimento de longo prazo

Introdução

Analisaremos as decisões de investimento de longo prazo, também chamadas decisões de investimentos de capital. O principal processo usado é o orçamento de capital. Por serem estratégicas, essas decisões costumam tomar grande parte do tempo dos executivos de finanças. Analisaremos o orçamento de capital como um processo básico de análise de projetos e tomada de decisão, em suas várias fases: geração de propostas, determinação das alternativas viáveis, tomada de decisão, implantação e avaliação de desempenho.

O orçamento de capital é instrumento recomendável para a decisão de investimento de capital devido a vários fatores:

  • O impacto da decisão é de longo prazo – Quando a empresa decide implantar uma nova fábrica com vida útil de 10, 15 ou 20 anos, suas operações serão afetadas ao longo desse período. Suas previsões de vendas deverão abranger esse período, assim como a necessidade de matéria-prima, de energia, de pessoal especializado e treinado, de assistência técnica e atualização tecnológica, e assim por diante.
  • O risco envolvido é alto – O dimensionamento inadequado de mercado ou de tecnologia pode causar grandes prejuízos. O fi nanciamento impróprio, a dependência de poucos fornecedores ou de poucos clientes, a má localização, a falta de energia, ou mudanças nas políticas públicas, as ações de concorrentes, dentre outros, são fatores que devem ser cuidadosamente considerados.
  • O momento adequado do investimento – Há grande difi culdade em se conhecer o momento adequado para o investimento. A máxima de se investir nos momentos de recessão como preparação para atender a demanda na vinda do crescimento seria válida somente se conhecesse com alguma precisão e com antecedência a dimensão dos períodos de recessão e crescimento, fato que não acontece.
  • Racionalidade na decisão de investimento – Ao utilizar o orçamento de capital, a empresa pode gerar alternativas não analisadas inicialmente, como trocas de fornecedores, novos equipamentos, construção modular, terceirização de mão de obra, alianças estratégicas e novas fontes de fi nanciamento.
  • Decisão de financiamento – Dependendo do montante envolvido, é possível analisar a viabilidade de lançar ações, captar recursos no exterior, buscar novos sócios ou mesmo financiamentos junto a fornecedores. Essa decisão procura menor custo de capital, prazos compatíveis e estrutura de capital adequada. O orçamento de capital propicia a análise completa desses aspectos.

O orçamento de capital visa responder uma série de questões, tais como:

  • O projeto maximizará a riqueza dos acionistas?
  • O projeto se pagará?
  • Trará riscos adicionais ao negócio?
  • Trará benefícios ou custos adicionais para os projetos existentes?

Há dois tipos de informações fundamentais à adoção das técnicas de orçamento de capital. Uma é a estimativa dos fluxos de caixa livres de cada projeto e a outra é a determinação do custo de capital a ser considerado para descontar esses fluxos. De modo geral, quanto maior for o risco do projeto, maior deverá ser o custo de capital considerado, tendo em vista que o custo de capital é afetado pelo risco do negócio e pelo risco financeiro de cada projeto

Sucessos e insucessos

Se o orçamento de capital não for bem preparado, poderão advir consequências econômicas bastante negativas. A empresa que investe demais assume grandes gastos de depreciação e encargos financeiros. A que não investe o suficiente pode ver os equipamentos tornarem-se obsoletos, a tecnologia utilizada ser superada, as inovações não acontecerem e ocorrerem perda de fatias de mercado.

Uma das preocupações básicas com a decisão de investimentos de capital é a consideração sobre qual a taxa de retorno a ser exigida dos projetos (custo de capital). Estudos realizados sobre o mercado de ações nos Estados Unidos no período de 1926 a 1976 indicam que os retornos que mais ocorreram foram entre 10% a 20%. Houve anos, no entanto, que os retornos chegaram a –50% (1931) e a + 50% (1933 e 1954).

É importante citar alguns casos de insucessos de investimento. Um dos mais interessantes foi o da Mercedes Benz, que no fi nal da década de 1990 construiu sua nova fábrica em Juiz de Fora, Minas Gerais, para produzir a minivan Classe A, aproveitando sua imagem favorável junto as classes mais ricas do país. Com design moderno e projeto tecnológico avançado, esperava vender no país cerca de 100.000 unidades por ano. As vendas fi caram muito aquém do previsto no projeto, determinando grandes mudanças.

Em fins do ano 2000, a chamada nova economia americana, constituída por empresas do e-business, viu suas ações negociadas na Nasdaq caírem vertiginosamente, causando grandes prejuízos aos acionistas. O excesso de otimismo quanto ao crescimento dos negócios não se confirmou, e só nos três primeiros meses de 2001 os preços das ações da Nasdaq caíram cerca de 40%.

De modo geral, o grande motivo do fracasso de projetos é o excesso de otimismo quanto às vendas e às entradas de caixa. Outros problemas como a má gestão, a elevação de preços de matérias-primas e insumos, as mudanças nas cotações cambiais, a entrada de novos concorrentes, a elevação dos custos de máquinas e equipamentos, a obsolescência tecnológica e os fi nanciamentos inadequados também contribuem para que os projetos falhem.

Dentre os motivos de sucesso estão as previsões de vendas acuradas, permitindo que se determine corretamente oportunidades de aquisição ou arrendamento mercantil de ativos e desinvestimentos ou redução de investimentos durante períodos de baixa demanda, mantendo políticas equilibradas e grande disciplina econômico-fi nanceira, evitando ora excesso de capacidade e custos altos, ora reduzida capacidade de atender a demanda, o que evita grandes dificuldades financeiras.

Orçamento de capital

As decisões de investimento de longo prazo, pela sua relevância, exigem a adoção de métodos sofi sticados de análise dos projetos. Para isso, o processo de orçamento de capital contribui significativamente.

Decisões de investimento de longo prazo envolvem a avaliação e seleção de propostas de investimento de recursos financeiros por prazo superior a um ano, com o objetivo de propiciar retorno aos proprietários desse capital.

Os investimentos de capital são estratégicos, pois quando falham costumam causar grandes prejuízos e são de difícil reversibilidade. Englobam a análise e avaliação de aspectos relevantes, tais como: a estratégia global da empresa, o método de avaliação, a barganha risco versus retorno, a dinâmica do mundo dos negócios e tantos outros.

Orçamento de capital é a seleção dos projetos aprovados e a quantificação dos recursos a serem alocados.

É preciso estabelecer critérios que permitam fazer uma alocação de recursos capaz de assegurar a maximização da riqueza do acionista. Se as empresas não forem competentes nesse sentido, ao invés de reterem recursos para investimentos internos, deverão distribuir os recursos aos acionistas, por meio de dividendos. O orçamento de capital é um instrumento valioso para ajudá-las nessa tarefa.

O orçamento de capital procura atender objetivos empresariais estratégicos, os quais são fundamentais na determinação do sucesso ou fracasso do negócio:

  • Maximizar a riqueza do acionista mediante investimentos nos projetos mais rentáveis.
  • Criar sinergia entre os diversos projetos.
  • Substituir ativos obsoletos, desgastados e antieconômicos.
  • Proteger o mercado.
  • Conhecer e dominar novas tecnologias.
  • Dominar novos mercados.
  • Inibir concorrentes.
  • Aproveitar recursos existentes e potencial de crédito.
  • Reduzir custos e defi ciências.
  • Aproveitar novas oportunidades, mudar o ritmo dos gastos e utilizar ativos de terceiros.

Por outro lado, sabemos que o orçamento de capital exige a criteriosa elaboração de propostas de investimentos envolvendo um complexo sistema de obtenção e análise de amplas e variadas informações. Embora não seja objetivo aprofundarmos esse assunto, destacamos a importância da elaboração de projetos de viabilidade econômico-fi nanceira, contemplando basicamente as seguintes partes:

  • Análise de mercado – defi nição do produto a ser produzido, quantidade, preço a ser praticado, produtos concorrentes, possíveis entrantes, possíveis produtos substitutos e canibalismo dos produtos existentes.
  • Localização física – local de implantação, tamanho do projeto, distância dos centros fornecedores de matérias-primas, acesso a portos, aeroportos e rodovias, telecomunicações e mercado consumidor.
  • Análise de suprimentos – determinação detalhada dos fornecedores de matéria-prima e insumos, mão de obra, energia, água, telecomunicações, transportes e logística.
  • Análise de custos – cálculo dos custos dos equipamentos, máquinas, ferramentas, acessórios, transportes, montagem, construção civil, jardinagem, prédios, depósitos, laboratórios.
  • Detalhamento dos custos fabris: matéria-prima, mão de obra, gastos gerais de fabricação e das despesas operacionais etc. Cálculo do ponto de equilíbrio, das margens de contribuição, simulação de custeios e alavancagem operacional.
  • Análise da carga tributária – planejamento tributário abrangendo COFINS, ICMS, ISS, IPI, IR, ISS, IPVA, IPTU e encargos trabalhistas. Nesse item é muito importante aprovei tar incentivos proporcionados por estados e municípios.
  • Análise de preços – estudo dos preços praticados por fabricantes concorrentes do mesmo produto ou de produtos similares, comparação entre preços que o mercado aceita e custos dos produtos fabricados, prazo médio de recebimento, política de desconto, prazo médio de rotação de estoques.
  • Análise de financiamento – determinação das origens e aplicações de recursos, avaliação das consequências na estrutura de capital, seleção das fontes de fi nanciamento, taxas de juros, prazos de carência e de amortização.
  • Elaboração do fluxo de caixa livre do projeto – determinação das entradas e saídas de caixa, por período. Nesse item é importante trabalhar com simulação considerando o risco do projeto.
  • Determinação do custo de capital – cálculo do custo de capital com a adoção do novo projeto.

Fases da análise de investimentos

Fases de um Investimento de Capital:

  • Determinação do custo do projeto.
  • Estimação do fluxo de caixa do projeto e do valor residual do investimento.
  • Consideração do risco dos fluxos de caixa.
  • Determinação da taxa de desconto em função do custo do capital e do risco.
  • Cálculo do valor presente do ativo.
  • Comparação do valor presente das entradas com o das saídas – maior aceita, menor rejeita o projeto.
  • Mudanças no ritmo e no momento do investimento conforme as contingências.

Classificação dos projetos

Existem vários motivos que determinam a implantação ou não de certos projetos e que implicam numa primeira classifi cação para efeito de análise:

  • Projetos de manutenção, substituição ou redução de custos – são aqueles que envolvem reposição, atualização tecnológica ou redução de custos. Normalmente, dizem respeito a novas máquinas, equipamentos, computadores, softwares ou equivalentes, com a função de atualização e inovação tecnológica para melhoria da eficiência. Nesses projetos, surgem questões como: essa operação deve ser continuada? Devemos mudar a tecnologia? Exemplo: a avaliação de três projetos alternativos de modernização do sistema de transporte interno para substituição do atual que está se tornando antieconômico.
  • Projetos de expansão da capacidade – envolvem a compra de novas instalações, máquinas, equipamentos ou equivalentes, com a fi nalidade de aumentar produção, expandir vendas, aumentar a participação no mercado, expandir área geográfica. São projetos mais complexos e que exigem análises detalhadas e são decididos pela alta administração. Exemplo: a Suzuki Máquinas de Lavar, de Colombo-PR, está avaliando a implantação de uma nova unidade industrial no município de Caxias do Sul-RS, com o objetivo de dobrar sua produção.
  • Projetos de lançamento de novos produtos – envolvem a ampliação da linha de produto da empresa. Exemplo: a decisão da Volkswagen em produzir na fábrica de São José dos Pinhais-PR o carro mundial, servindo essa unidade como base para exportação para toda a América Latina e Ásia. São projetos altamente estratégicos, que exigem a decisão da alta administração da empresa e sofisticadas análises.
  • Projetos de segurança ou ambientais – ocorrem por determinações governamentais, acordos sindicais, cláusulas de contratos de seguros ou por política da empresa. Normalmente, abrangem projetos de tratamento e descarte de materiais tóxicos, inspeção e processos, restauração de terras, manutenção de equipamento para combate à poluição, testes para detectar contaminantes e outros. Exemplo: a Votorantim Cimentos investe num novo filtro para reduzir poluição em uma de suas unidades.
  • Projetos de pesquisa e desenvolvimento – são determinados pela própria administração da empresa na busca de vantagens competitivas. Exemplo: a Embraer desenvolve um projeto para construção de um novo avião.

Além dos projetos classificados anteriormente, existem outros que não se classificam adequadamente em nenhuma dessas categorias. Exemplos: centros administrativos, aviões executivos, estacionamentos.

O processo de orçamento de Capital

O processo de orçamento de capital é muito rico e complexo, e sua correta utilização depende da visão dos dirigentes da empresa e da forma como ele é incentivado e apoiado. Consiste em cinco fases:

  1. Geração de propostas – A geração das propostas de investimentos geralmente ocorre na própria empresa. Normalmente, as pessoas da área comercial, que têm forte relacionamento com os clientes e com o mercado, trazem as ideias sobre novos produtos, novas tecnologias e novos sistemas. Visitas a feiras de negócios podem gerar uma série de novas ideias que se converterão em projetos. As empresas precisam desse fl uxo constante de novas ideias para se desenvolverem. Muitas estimulam e premiam ideias inovadoras. Alguns exemplos: Boticário, Natura, 3M, General Electric e Microsoft.
  2. Determinação das alternativas viáveis – Após a geração de propostas, são defi nidas as alternativas viáveis a serem analisadas, segundo as estratégias globais da empresa. Qualquer decisão a ser tomada implica na escolha entre duas ou mais alternativas viáveis, tendo sido considerados os aspectos econômicos, tecnológicos, ambientais, éticos etc. Nesta etapa, é gerado um relatório sintético, normalmente chamado de análise de viabilidade econômica e financeira, recomendando ou desaconselhando a aprovação do projeto. Na comparação dos diferentes projetos, são utilizados diversos métodos de avaliação. Neste livro apresentamos os métodos: a) payback; b) payback descontado; c) valor presente líquido; d) índice de rentabilidade, e) taxa interna de retorno e f ) taxa interna de retorno modifi cada. Na prática, pode ser usado mais de um critério para melhorar a decisão.
  3. Tomada de decisão – Implica no comprometimento de recursos para o projeto. As decisões de investimento baseiam-se em previsões sobre o futuro, e como essas previsões podem não se confirmar, é fundamental que os analistas considerem as consequências de desvios. Uma maneira de reduzir riscos é trabalhar com diferentes cenários, aplicando probabilidades aos fluxos de caixa. Outra é adicionar uma taxa de risco ao custo de capital, conforme o risco de cada projeto. Alguns projetos podem apresentar vantagens reais, mas difíceis de quantifi car, como conforto, conveniência, qualidade e imagem, por exemplo. Mesmo que não haja vantagens econômicas imediatas, pode haver vantagens estratégicas que façam com que um projeto seja atraente, como a criação de novas oportunidades de negócio ou penetração em novos mercados.
  4. Implantação – Após sua aprovação, vem uma das fases críticas de qualquer projeto: a implantação. Esse momento exige gestão de projetos que será mais ou menos complexa dependendo da natureza e do porte do projeto. Recomendamos àqueles que tiverem interesse no aprofundamento desse tema que consultem a bibliografia indicada no final do capítulo.
  5. Avaliação de desempenho – As empresas têm procedimentos formais para avaliar o desempenho de seus investimentos. Normalmente essa avaliação abrange: controle dos projetos em implantação; avaliação a posteriori dos investimentos, sendo o momento mais comum para isso um ano após a implantação, e avaliação do desempenho operacional. O objetivo desta fase é assegurar que as premissas que o recomendaram sejam efetivadas e até ultrapassadas. Um exemplo típico dessa avaliação é o da Volvo, que possui um chamado white book (livro branco) para registrar toda a história de seus projetos, usando suas experiências passadas e atuais em novos projetos.

Suporte do orçamento de capital

Como o orçamento de capital é um processo-chave na tomada de decisão de investimento de longo prazo, as empresas desenvolvem um sistema de informações que lhes dê sustentação na coleta, análise e avaliação de:

  • Informações sobre a vida econômica do projeto.
  • Custo de capital e taxa de retorno exigida.
  • Entradas e saídas de caixa do projeto.
  • Possíveis respostas dos concorrentes ao projeto.
  • Possíveis implicações do projeto para o planejamento estratégico da empresa.

Esse sistema deverá permitir a consistência no estabelecimento das premissas que sustentarão as avaliações. Essas premissas são, por exemplo: crescimento das vendas, comportamento dos custos, comportamento dos gastos gerais, estrutura tributária, projetos em andamento e encargos trabalhistas. Uma premissa fundamental e que costuma ser muito controversa é a do custo de capital.

Os fluxos de caixa – e não qualquer outra medida, contábil ou econômica – constituem-se na informação mais relevante para o processo de análise de investimento.

Existe uma corrente de teóricos e práticos do orçamento de capital que defende a adoção de critérios não quantitativos na análise de projetos.

In [ ]: